Crônica: A crise da civilidade

Por Leandro de Souza Pereira

Grêmio e Santos jogavam na Arena do Grêmio em Porto Alegre. Partida quente e casa cheia. O jogo pelas oitavas de final da Copa do Brasil terminou com a vitória de Santos por 2 a 0. Mário Lúcio Duarte Costa, popularmente conhecido como Aranha, defendia o Santos e foi alvo de insultos pela torcida adversária.

Câmeras do canal ESPN Brasil flagraram a torcedora gremista Patrícia Moreira chamando Aranha de macaco. Não só esta moça, mas alguns indivíduos. Lamentável agressão que deixou Aranha aborrecido, assim como eu que acompanhei o caso e senti na pele a indignação. A imagem divulgada mostra a moça visivelmente gesticulando com a boca a palavra “M-A-C-A-C-O”. Esta cena percorreu por diversos lugares, inclusive na internet, onde foi duramente crucificada por internautas.

Já sabia que o torcedor é mesmo um fanático cruel, mas me assusta pensar que em tempos atuais ainda vivemos momentos como esse. O futebol no Brasil não pode – e nem deve – ser caracterizado como guerra ou vale tudo. Futebol está no sangue do brasileiro, embora não tenha sido inventado no nosso país, o Brasil é sim o país do futebol, é a cultura que herdamos de gerações.

A moça chamou Aranha de macaco, que na verdade, qual culpa tem nisso? O macaco. O que o animal tem a ver? Preconceito? Racismo? Por que chama-se alguém de macaco, ou qualquer outro animal? Para elogiar, para ofender? Essa é a tentativa mais baixa de ofender um negro?

A torcida xinga os jogadores, que xingam técnicos e juízes. É lançada a guerra de ofensas. A civilidade parece ter ficado dos portões para fora do estádio. A rivalidade é protagonista, rouba a cena do esporte. Quando me dou conta, o foco se perdeu. O ódio está em campo.

A moça, que por (in)feliz coincidência foi identificada, perdeu emprego, teve sua casa incendiada, sua imagem  e dados pessoais divulgados na internet, responde por processos, entre outras sérias consequências. Esse teatro, no qual já assisti outras vezes com protagonistas diferentes, choca a população. É como se gerasse uma revolução no pensamento da sociedade, que se dispõe a mudar para desvincular o preconceito, mas se perde no meio do caminho.

Torcer é não desumanizar o adversário só pelo fato de estar em melhores condições que seu time. Não existe fórmula nem apostila para aprender ser um bom torcedor – não conheci até hoje -, mas é necessário conhecer as limitações do bom senso, o que não fazer e como não se comportar dentro de um estádio de futebol. O futebol está sendo levado a sério, o humor se perdeu. Burros! Opa. Sem me dar conta usei um animal como termo para me expressar. Mas será que os burros são mesmo burros? Por que o ser humano insiste em associar animais a pessoas?

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